sexta-feira, 5 de setembro de 2014

PEI - PROGRAMA DE ENRIQUECIMENTO INSTRUMENTAL

PEI - PROGRAMA DE ENRIQUECIMENTO INSTRUMENTAL

Entrevista de Edith Rubinstein - Site Psicopedagogia On Line


Edith Rubinstein - Fotos: Silvio Canella
O que vem a ser o PEI (Programa de Eriquecimento Instrumental)? 
O PEI é um programa pedagógico que promove experiências e vivências, através do qual  pretende-se alcançar o seguinte objetivo: "aumentar a capacidade do organismo humano para ser modificado através da exposição direta aos estímulos e à experiência proporcionada pelos contatos com a vida e com as exigências da aprendizagem formal".
Especificamente o PEI pretende atingir os seguintes sub-objetivos: 
  • corrigir funções cognitivas deficientes,
    ajudar na aquisição de conceitos básicos,
    produzir motivação intrínseca
    produzir processos de reflexão,
    produzir motivação pela tarefa,
    passar de uma atitude passiva-reprodutora de informação a autogeradora. 
Você utiliza o PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental), de Reuven Feuerstein, em sua linha de trabalho, por que essa escolha?
O psicopedagogo que lida com a aprendizagem deve estar sempre em busca de ferramentas que possam auxiliá-lo no trabalho com a aprendizagem. O PEI é um recurso psicopedagógico que permite ao profissional acompanhar e compreender o processo cognitivo do aprendiz. Os exercícios que são propostos são disparadores de reflexão e de tomada de consciência metacognitiva.
Pretende-se através do PEI desenvolver a "meta-aprendizagem", ou seja , a consciência  de como se aprende . Esta proposta se apoia numa filosofia educacional que tem como metas desencadear processos geradores de: autonomia, sentimento de competência, construção de sentido, capacidade de estabelecimento de analogias com o que está sendo vivenciado.  Os exercícios do PEI são sempre "pretexto" para vivenciar uma experiência de aprendizagem significativa.
A proposta considera tanto aspectos cognitivos quanto relacionais/emocionais. O aprendiz é convidado a argumentar, sustentar, ou até mesmo reformular seu ponto de vista.
Deve refletir e tomar decisões, colocando-se numa posição ativa: sua palavra é ouvida e valorizada pelo outro. Estimula-se bastante o trabalho em pares quando em grupo, e com o mediador quando aplicado individualmente.
Às vezes o aprendiz tem uma resposta face a um desafio, mas teme estar no "caminho errado". Prefere então perguntar a alguém que julga saber mais do que ele; precisa a confirmação do outro para caminhar.
Outras vezes a resposta é incorreta pela sua impulsividade e/ou falta de reflexão.
Nos exemplos citados, tanto aspectos de natureza relacional quanto aspectos cognitivos explicam as possíveis dificuldades de aprendizagem. Sabe-se que a insegurança para responder a um desafio pode ter variadas origens, porém, a capacidade para elaborar o ato mental pode contribuir também para a construção da autonomia e segurança do aprendiz. 
Como se abordaria, através do PEI, as dificuldades de aprendizagem?
Inicialmente o mediador busca verificar se o aprendiz tem uma percepção clara do que se propõe a ele, procurando garantir este ponto de partida. O mediador deve reformular o modo de apresentar o desafio, com o objetivo de ser compreendido. O fracasso num processo pode estar associado à pouca clareza da natureza do desafio. O mediador irá desencadear no aprendiz a necessidade de elaborar boas perguntas, por exemplo: " O que é que tenho que fazer?", " Que passos tenho que tomar?" Elaborar boas perguntas e ter consciência do seu processo é denominado meta-cognição. Para Reuven
Feuerstein
, trata-se de meta-aprendizagem.
Muitas vezes essa pessoa está dependente não só por uma questão afetiva, emocional ou relacional. Ela pode ser dependente também, porque sua forma de pensar não está levando em conta a elaboração necessária para resolver o problema; o autoquestionamento que permite discriminar o que é necessário fazer.
Na proposta do PEI, o mediador organiza a relação psicopedagógica através de um método clínico, de perguntas pontuais.
O aprendiz, através da convivência com o psicopedagogo, aprende a fazer perguntas pontuais e a melhorar a sua capacidade de pensar. 
Qual é a origem do PEI?
O PEI é o resultado de uma experiência de avaliação cognitiva de jovens órfãos de guerra, em 1950, quando se fazia a preparação deles para a imigração e entrada no mercado de trabalho em Israel. Utilizou-se naquela ocasião o Teste Raven, que mede a capacidade para fazer analogias, sem levar em conta aspectos culturais. Através destes testes verificou-se que os jovens tinham dificuldades para fazer analogias.
Reuven Feuerstein, psicólogo educacional que trabalhava na instituição que preparava os jovens imigrantes, percebeu que o teste avaliava a performance, não avaliando capacidades em potencial. Acreditando que os jovens tinham
mais capacidade do que o teste demonstrava, desenvolveu uma forma peculiar de avaliar, que englobava simultaneamente ensinar. Denominou a este processo de L.P.A.D. - Learning Potential Assessment Device. Ele começou a construir
sua teoria, a identificar funções cognitivas, ou seja, pré requisitos para desenvolver operações mentais. Para fazer analogias, é preciso identificar, analisar, comparar, classificar e levantar hipóteses. Nesse processo de trabalho com os jovens, Feuerstein desenvolveu uma técnica que ele chamou de EAM, ou seja, "Experiência de Aprendizagem Mediada".
O PEI surgiu como um programa pedagógico para desencadear processos cognitivos e de atitudes com respeito ao conhecimento e resolução de situações problema.
O que vem a ser a EAM?
Feuerstein desenvolveu o termo Experiência de Aprendizagem Mediada - EAM -para denominar um procedimento muito detalhado e específico, que visa a desencadear no aprendiz a necessidade de perceber a intencionalidade da ação do mediador, estabelecendo relações com a situação vivida e construindo significados para ela.
O grande objetivo de uma ação mediada é o de contribuir para o desenvolvimento de uma forma mais autônoma e mais elaborada em relação aos desafios.
Numa EAM há três envolvidos: o mediador, o aprendiz e o objeto de conhecimento. Paradoxalmente, o que é permanente nesta relação é a mudança, a flexibilidade. O mediador adapta o objeto de conhecimento de acordo com as necessidades. Ele mesmo também se adapta diante das necessidades do aprendiz. Este, por sua vez, deve se modificar também.
Nesta teoria, para que uma EAM seja considerada de qualidade, é preciso que ela leve em consideração três condições: Intencionalidade/reciprocidade, transcendência e significado. O mediador deve tornar clara sua intencionalidade para o mediado, verificando se a mesma foi bem compreendida pelo mesmo. Reciprocidade implica em o mediado manifestar que compreendeu a intencionalidade do mediador. Além disto, o mediador também deve considerar que a experiência deve transcender a ação vivida no presente e que a ação deve ter um significado, principalmente de ordem afetiva, para o aprendiz.
O que são funções cognitivas nesta teoria ?
Entende-se por funções cognitivas uma série de atividades mentais que são pré requisitos para dominar as operações mentais (sendos estas um conjunto de ações interiorizadas, organizadas e coordenadas, por meio das quais se elabora a informação procedente das fontes internas e externas de estimulação). Algumas das funções cognitivas estão relacionadas com a entrada da informações, outras com a elaboração da situação problema e outras com as respostas diante dos desafios. Um exemplo de função cognitiva pode ser: que a pessoa tenha uma percepção clara, precisa, do que se espera dela ou do que ela tem que fazer. Outra é que observe os estímulos que se oferecem a ela de um modo sistemático. Muitas vezes um aprendiz fracassa numa resposta por que ele não observa bem detalhes. Na fase de elaboração ele deveria levar em conta que embora existam muitos detalhes, muitos estímulos, nem todos são igualmente relevantes. Então ele teria que, em função do que se espera dele na tarefa, fazer uma diferenciação entre o que é relevante e o que não é. Na fase de resposta ele deveria analisá-la antes de emití-la, verificar se aquilo que ele vai responder tem relação com a proposta inicial, com o desafio que Ihe foi colocado 
Como é vista então a aprendizagem? E o mediador?
A aprendizagem é vista como um processo no qual a ação do aprendiz, a sua participação, é importante. Cabe ao mediador fazer perguntas pontuais, detonadoras de reflexão, que Feuerstein denomina de estilo interrogatório.
Dependendo do estilo interrogatório e da mediação feita pelo ensinante, o aprendiz poderá desenvolver ou não um estilo cognitivo diferente daquele através do qual fracassava.
O mediador representa um outro que ocupa uma posição de acolhimento, pois está sempre buscando compreeender o caminho que o aprendiz está demonstrando seguir através de suas respostas. Também é alguém que se posiciona com "humildade", com disposição para escutar o ponto de vista do outro.
O mediador tem como meta desencadear o desenvolvimento do sentimento de competência do aprendiz. Não através de elogios, mas fundamentalmente pela ação mediada que busca adaptar o desafio às necessidades e possibilidades do aprendiz. 

Como a psicopedagogia compreende a aprendizagem e o papel do mediador?
A Psicopedagogia é uma prática. Podemos hoje fazer uma distinção entre uma prática dinâmica e outra voltada para a reeducação.
A Psicopedagogia reeducativa está mais voltada para a questão da remediação de deficiências observadas no diagnóstico.
A Psicopedagogia dinâmica está mais preocupada com as possíveis causas que levam a um determinado estilo de aprendizagem, procurando desenvolver a consciência do aprendiz em relação aos seus processos de aprendizagem. O objetivo no diagnóstico é revelar o potencial de aprendizagem.  Em algumas situações, por mais que se faça uma mediação de qualidade, nem sempre existe a reciprocidade por parte do aprendiz. O psicopedagogo trabalha com um sujeito cognoscente, e este, por diferentes razões, poderá resistir à EAM.
Mesmo diante da resistência do aprendiz em mudar seus esquemas de ação, o mediador não deverá desistir, e sim colocar-se numa posição de acolhimento. Esta atitude contribui algumas vezes para a tomada de consciência de processos e de possibilidade de mudanças.
Em alguns casos é necessário buscar diferentes recursos de intervenção, com o objetivo de mudar a postura do aprendiz. Outras vezes se faz necessária a participação de outros profissionais. O trabalho com o P.E.I e com a EAM oferece ao aprendiz experiências e vivências nas quais ele tem condição de tomar alguma consciência de seu estilo de interpretar a realidade.
A Psicopedagogia se beneficia quando leva em conta o conceito de complexidade da filosofia. Podemos pensar na palavra complexidade do ponto de vista intuitivo, mas existem especialistas que estão discutindo este conceito, que basicamente está se contrapondo a uma visão cartesiana de pensamento.
O conceito de complexidade introduz um outro modelo epistemológico que pode nos ajudar a entender diferentes aspectos que compõem uma determinada modalidade de aprendizagem.
A adoção desta epistemologia poderá também contribuir para uma visão menos reducionista dos problemas de aprendizagem.Às vezes, na tentativa de compreender de forma dinâmica as questões da aprendizagem, busca-se explicar tudo pelo lado da Subjetividade, pela psicanálise. Também existe uma tendência para explicar as dificuldades só pelo lado da psicologia cognitiva. A grande meta e desafio da Psicopedagogia é buscar uma visão mais ampla e equilibrada na compreensão do ser humano cognoscente.
A Psicopedagogia é uma prática que avançou muito e conversou com diferentes disciplinas, como a antropologia, a psicanálise, a psicologia cognitiva, a lingüística, a psicolingüística, entre outras. Essas diferentes conversas prepararam o caminho para que a psicopedagogia, agora conversando com a filosofia, tenha uma abordagem mais problematizadora, que levanta mais hipóteses. Esta problematização e questionamento permitem  compreender a natureza do processo de aprendizagem no seu contexto, considerando as múltiplas variáveis que podem explicar a natureza de uma dificuldade de aprendizagem.
A proposta psicopedagógica de Feuerstein, um método clinico que lembra o método socrático, ajuda o psicopedagogo no levantamento de possíveis razões para as dificuldades. Ela ajuda tanto o aprendiz quanto o profissional, no sentido de propor uma (re)avaliação contínua, com levantamento de hipóteses a respeito do processo de ensino aprendizagem e da relação entre o mediador e seu aprendiz. Tanto um quanto outro vivem uma situação de aprendizagem sob a ótica do questionamento e da reflexão. É possível que esta atitude mais questionadora gere  no início um desconforto, porque não admite a existência de uma resposta única para a compreensão das dificuldades no processo de aprendizagem.
Existem escolas que trabalham com o PEI? Em caso afirmativo, que tipo de dificuldades as crianças apresentam?
Sim, existem em São Paulo algumas escolas que estão trabalhando muito seriamente com o PEI.
Vejo esta experiência como  um trabalho de prevenção secundária, porque estão trabalhando com as crianças que já apresentam alguma dificuldade em relação aos conteúdos e às disciplinas. Trabalham com grupos pequenos, tentando a partir dessas experiências observar o processo de mudança na criança e no professor. Seria ideal se o PEI pudesse ser aplicado preventivamente ou mesmo como um recurso enriquecedor na própria formação dos alunos.
Para aplicar o PEI é necessário que o especialista tenha uma formação no programa, com pessoas credenciadas para fazê-lo.
Os exercícios são meros disparadores que exigem do aplicador técnica para mediar, sensibilidade e conhecimento de mundo para analisar e construir junto com os aprendizes as possíveis analogias. Eles despertam no aprendiz a necessidade de estabelecer toda sorte de relações, ampliando a sua visão de mundo.
Noto fundamentalmente uma dificuldade específica nos alunos para se colocarem ativamente diante de uma situação de desafio.Estas dificuldades podem ser para verbalizar suas dúvidas, para colocar seus pontosde vista, ou para fazer com que suas vozes apareçam em sala de aula.
O mediador acompanha o percurso do pensamento do aprendiz, o que só pode ser percebido pela linguagem. Por isto, ele insiste muito para que a criança fale e argumente. Muitas crianças, antes passivas em sala de aula, começam a falar no grupo pequeno das sessões de PEI, e se encorajam, na sala de aula, a perguntar, buscando " uma percepção clara e precisa " sobre o que está sendo apresentado em sala de aula. Esta posição mais ativa contribui também para que dentro do ambiente familiar o aprendiz adote uma posição mais questionadora.
Numa sessão de PEI há espaço para falar dos  conflitos  da sala de aula, da família, da  sociedade,  enfim para  compartilhar no grupo uma gama grande de questões que dizem respeito às experiências vividas por todas as pessoas. Esta reflexão constante contribui para que se viva com mais intensidade e consciência os desafios que a vida propicia. O PEI pode ser mais um recurso que colabora para a integração das pessoas na sociedade de forma criativa e independente.
O professor não  se torna "meio" terapeuta?
O professor não faz terapia, mas uma ação pedagógica bem conduzida pode ter "efeitos terapêuticos", bem como contribuir preventivamente para que não se instale um problema de aprendizagem. Nesta proposta enfatiza-se a linguagem e a construção de sentido, o que permite ao aprendiz tomar consciência dos seus processos de pensamento. Permite ao mediador levantar hipóteses a respeito do processo de ensino aprendizagem, para ,se necessário, reformular a ação pedagógica. Esta proposta visa também contribuir para que o professor não coloque toda a sua energia apenas no conteúdo acadêmico, mas que considere fundamentalmente o processo de construção de sentidos, para promover  uma aprendizagem significativa. Infelizmente, na tradição de sala de aula, perguntar é significado como sinônimo de ignorância. Busca-se, nesta teoria, desenvolver
o questionamento como forma de construção do saber. Perguntar é fundamental para o aprender. 
Esta proposta se preocupa com as áreas de conhecimento?
É uma proposta que visa mais do que encontrar a resposta certa. Procura desenvolver a capacidade de pensar, pois o conhecimento não é algo estático. A necessidade faz com que ele tenha que ser re-atualizado e re-significado.
Mais do que acumular conhecimento, a pessoa tem que aprender a acessá-lo, aprender a relacioná-lo, bem como aprender a lidar com a informação.
Outra preocupação deste proposta é com a construção de sentidos para promover uma aprendizagem significativa. No processo de mediação, que é uma técnica muito especifica, muito peculiar, o mediador tem que trabalhar deixando bem claro para seu mediado qual é a sua intenção com relação a um determinado conteúdo. Observa se existe reciprocidade, se o indivíduo se interessa, se está  olhando, seentendeu. Se nada disso ocorre, o mediador vai reformular a maneira de apresentar o estímulo, até que se obtenha alguma reciprocidade.
O educador deve se preocupar em  investir no processo de aprendizagem, para desenvolver a meta-cognição e a meta-aprendizagem.
É necessário desenvolver a habilidade de  estabelecer relações. Embora isto pareça ser algo natural, nem todas as pessoas sentem a necessidade de relacionar as experiências já vividas com as novas.
Uma mediação de qualidade desencadeia um novo estilo de aprender.
Como fica a questão afetiva?
Feuerstein  enfatiza  a questão  afetiva e também cultural, voltada para os valores do grupo. Ele afirma que a cognição e a afetividade são duas faces de uma mesma moeda transparente. No processo mediacional está presente a necessidade de desencadear no aprendiz sua autonomia, seu sentimento de competência em relação à autoria. O mediador ocupa uma posição de acolhimento, na medida em que está disponível para atender às necessidades do aprendiz, modificando os estímulos, aceitando, tolerando, esperando, enfim, adaptando-se ao ritmo e às possibilidades dele.
Com respeito à questão dos valores do grupo, Feuerstein aponta para a necessidade de compartilhar os valores do grupo familiar ou mais amplo, como forma de construir a identidade individual e grupal. Atualmente, na sociedade globalizada, os valores individuais  nem sempre estão sendo valorizados. Aceitam-se com facilidade aqueles impostos pela mídia, o que
tem contribuído, algumas vezes, para a marginalização e inadaptação de pessoas e grupos.
Conta-se que numa ocasião, Feuerstein foi consultado para opinar a respeito da questão do  suicídio entre os índios Navajos americanos. Assim posicionou-se: "Para que vocês  sejam melhores americanos, primeiro precisam ser melhores indígenas, ou seja, precisam levar em conta sua própria cultura, seus próprios valores. 
Em que países o PEI já é aplicado?
O PEI é aplicado em diferentes países da Europa, da Ásia, da América Latina, nos EUA, e no Canadá. 
Como são os instrumentos do PEI? 
Os instrumentos não têm um conteúdo acadêmico, são exercícios disparadores de uma conversa entre o mediador e os aprendizes para tentar ressignificar as questões pessoais e questões culturais daquele grupo que esta vivendo aquela experiência. Através dos exercícios o aprendiz começa a compreender o seu processo de aprendizagem, aprende também a identíficá-lo e nomeá-lo através das funções cognitivas. Toda aula de PEI tem três momentos: realização  da tarefa, reflexão sobre o processo e construção de possíveis analogias  em torno da experiência vivenciada.
Como é a atitude do  profissional que aplica o PEI, diante das respostas do aluno?
Muitas vezes a resposta da criança é  estereotipada, é uma resposta "colada no discurso do outro". O mediador acolhe num primeiro momento, buscando direcionar a mediação para uma resposta mais autêntica.
Às vezes uma boa pergunta ajuda a obter uma boa resposta. É necessário criar condições que permitam a esta pessoa construir sua identidade, não ficando presa, colada ao outro. Deve-se ajudá-la a sair da posição de dependência do outro. O alvo a se atingir é a mudança de estilo de aprendizagem e de visão de mundo. Isto não é uma tarefa fácil, pois às vezes uma pessoa levou anos para construir um estilo, que não a ajuda, e que também é a manifestação de sua estrutura psíquica.
Se fizermos uma analogia com o estilo de se vestir, uma pessoa precisa de muitos anos para dizer que não usará mais as marcas impostas pela moda; que tem seu próprio estilo.
Para mudar o estilo cognitivo é preciso de experiência e de  maturidade. O mediador pode intervir neste processo. 
Como as escolas estão considerando a questão da aprendizagem significativa e o desenvolvimento da meta-aprendizagem ?
Embora exista uma preocupação em tornar a aprendizagem significativa, nem sempre as pessoas sabem como fazê-lo. Na maioria das vezes é o conteúdo acadêmico que está em primeiro lugar.
Aprender com significado e saber como se aprende é fundamental para a constituição do ser aprendente. Tenho me dedicado ao trabalho com professores no sentido de mobilizá-los em relação a esses aspectos. Nos encontros com os professores tenho tido oportunidade para trocar e aprender muito com eles.
Alguns educadores viveram experiências educativas, nas quais tinham que decorar, por exemplo, Latim, História, para " tirar notas". Mudar um  modelo educacional  para outro que leve em conta  o processo e não a repetição do conteúdo, exige dos educadores viver experiências pedagógicas distintas, onde o centro esteja no processo e não no produto final. Quando professores puderem viver a meta-aprendizagem, a meta-cognição, a reflexão, a aprendizagem significativa, poderão certamente produzir mudanças em seu estilo de ensino.
Na clínica dos problemas de aprendizagem, muitas pessoas inteligentes, sem defasagem, sem privação cultural, buscam a intervenção psicopedagógica, não para corrigir, mas para aprimorar sua forma de trabalhar, ou de lidar com o conhecimento formal. Tenho um exemplo de uma adolescente brilhante que se refere à matemática como algo "conformante", ou seja,  que não leva a nada. Esta adolescente diz:
"a palavra conformante não existe, mas eu estou chamando a matemática de "conformante".
Ela está nos sinalizando sua indignação diante de um conhecimento que lhe foi ensinado de um modo que não lhe permite compreender o sentido. Muitas alunos  se sentem como estrangeiros diante de alguns conteúdos.
Se o professor começar  a ter consciência disso, de que não é pelo fato de "ter falado" tem como conseqüência direta que  todos "aprenderam", de que a linguagem não é  transparente, que é preciso negociar o sentido sempre, seria muito diferente. O professor tem que estar muito atento à reciprocidade do aluno, à sua feição, ao seu gesto,  pois a linguagem corporal também fala. 
Você crê que ainda hoje falta diálogo entre professores e alunos?
Se as salas de aula funcionassem de forma que as diferentes vozes fossem ouvidas e de um modo em que todos estivessem envolvidos com a problematização dos conteúdos apresentados, teríamos menos crianças nas clínicas e provavelmente menos pessoas traumatizadas pelo fracasso escolar.
Na área da matemática também vemos algo que é interessante. Esta disciplina, pela sua característica de solicitar muita abstração, deveria nos ajudar a ter consciência de que somos pessoas pensantes. Poderia trazer prazer, mas, na maioria das vezes, provoca desconforto e desprazer, porque em geral, a
forma de lidar com esta disciplina é, na maioria das vezes,  bastante mecânica e sem significado.
O jovem da década de 80 e 90 não é o mesmo jovem da década de 50 ou 60, que se conformava em ter que ressignificar  posteriormente os conteúdos acadêmicos.
O jovem de hoje é pragmático e questionador. Quer saber o porquê e para quê tem que lidar com a informação que Ihes é apresentada.
O professor mediador dever buscar sempre  significados e compartilhá-los com os aprendizes. Se o mestre tem consciência disto, ou está atento a esta questão, provavelmente vai poder lidar de outra forma com o conteúdo acadêmico. Acontece porém que, como ele, mestre, não viveu isso, vai ter que viver, ou vai ter que ser mais sensível ao aluno e reformular a sua forma de lidar com o conhecimento.
O professor deveria então fazer de modo continuado a sua formação. 
Como fica então essa metodologia diante da evolução da tecnologia? 
O jovem hoje é mais fascinado pela informação mais instantânea; ele não tem muito prazer em estar lendo, tem prazer em assistir  TV, ou mexer na tela de um computador. Ainda hoje em nossa sociedade temos instrumentos de avaliação do conhecimento, como o vestibular. Como ficam então estas questões?
Existe uma ilusão, ao oferecer um conhecimento muito bem organizado, selecionado, boas apostilas, de que as pessoas podem memorizar e estarão bem preparadas para lidar com o conhecimento. Aqueles que são bem sucedidos no vestibular, são pessoas que sabem lidar com a informação. Podem não ter consciência disso, mas comparam, fazem analogias, estabelecem relações, ou seja, têm mecanismos e estratégias que permitem elaborar a informação, e portanto estão mais preparados para vencer a corrida do vestibular. O professor mediador não é um explicador. Seu foco está na orientação  do processo de construção. Sabemos que esta posição (a do mediador) não e fácil, pois exige uma mudança estrutural na política educacional, nos aspectos macro e micro. A política de como administrar o sistema dentro da sala de aula vai exigir que se aceite o professor que não tem respostas, que pode ser questionado pelo aluno, que consegue adotar uma posição de humildade no sentido de não ser o porta voz de verdades absolutas.
Sobre a tecnologia, penso que existe aqui uma má interpretação dela, pois a máquina sem o conteúdo, de nada vale. A utilidade dos bons recursos tecnológicos esta na possibilidade do ser humano poder fazer escolhas, relacionar, construir seus pontos de vista e poder fundamentalmente modificar e ser modificado. Esta modificação não é ocasionada pela simples exposição a sofisticadas tecnologias.
O ser humano necessita de outro ser humano com o qual se identifique e que Ihes puxe o olhar para algo que faça sentido. É verdade que nesse tempo de pós-modernismo não há muito investimento na elaboração do pensamento. Tudo é muito rápido com pouca reflexão, as respostas são imediatas. O imediatismo e a impulsividade imperam. Felizmente existe hoje uma movimento que se preocupa com o tempo livre. O lazer e o ócio são tão importantes quanto o trabalho.
Há quem diga que o importante não é fazer uma distinção entre trabalho e lazer, mas considerá-los como atividades humanas.
A tecnologia contribui para que o ser humano tenha mais tempo livre. Nesse sentido o educador tem a responsabilidade de preparar o aprendiz a lidar melhor com a reflexão, que influi nos processos de elaboração, presentes em todas as suas ações. Não é a tecnologia que deve preocupar, mas  o uso que se faz dela.
Não é suficiente poder acessar a internet para visitar bibliotecas se a pessoa não souber como administrar a informação que está a sua volta. Esta administração depende de como seu aparelho psíquico lida com o mundo que a cerca. Não há como negar o avanço tecnológico. O relevante é que o educador reflita sobre a questão existencial inerente ao ser humano.
A tecnologia é fruto da criação humana, e, certamente, como humanos, somos também capazes de impedir que esta construção nos afaste de nossa condição de seres sensíveis, pensantes e transformadores.

Edith Rubinstein - é pedagoga com especialização em Psicopedagogia pelo "Instituto Sedes Sapientiae" Formação em PEI (Programa de Enriquecimento Instrumental) pelo ICELP Hadassa Wizo Canadá Research Institute, Jerusalém/ Israel, nível I realizado em Jerusalém, nível II - realizado no Chile, e"trainers" (formadora) - realizado em Jerusalém Formação em LPAD (Diagnóstico Dinâmico do Potencial de Aprendizagem) nível I - pelo ICELP de Jerusalém, realizado em Madrid Membro do Conselho Nato da Associação Brasileira de Psicopedagogia, Presidente da Associação Brasileira de Psicopedagogia na gestão 85/86 Formadora do CETRANS - Centro de Educação Transdisciplinar.

Fonte:  http://www.psicopedagogia.com.br/entrevistas/entrevista.asp?entrID=5