quarta-feira, 7 de abril de 2010

"O problema da alfabetização não está no método, está na falta de estrutura das escolas"

Olá!

Abaixo uma entrevista muito interessante com a professora Tizuko Morchida Kishimoto, titular do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação (FEUSP.

Um grande abraço pedagógico...rs

Prof. Marcelo


Fonte: Cristiane Capuchinho, da USP Online

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva promulgou uma lei que amplia o ensino fundamental de oito para nove anos, tendo início a partir dos seis anos da criança. Por conta dessa mudança, será feita a revisão dos Parâmetros Curriculares Nacionais - diretrizes seguidas pela escola sobre o conteúdo curricular de cada série escolar, justificada pelos altos índices de repetição na 1ª série primária, que poderiam ser resultado de uma metodologia de alfabetização falha.

Com isso, volta à discussão sobre a eficiência do método construtivista, em relação ao fônico. O método fônico implica o uso da cartilha e o ensino da língua a partir da correlação entre fonemas e sílabas. Considerado ultrapassado por fazer uso do ensino por repetição, o parâmetro foi trocado pelo chamado sócio-construtivismo, em que as crianças experimentam a língua primeiro como um elemento do seu cotidiano, através de leituras e histórias contadas.

Para falar sobre alfabetização, o USP Online procurou a professora Tizuko Morchida Kishimoto, titular do Departamento de Metodologia do Ensino e Educação Comparada da Faculdade de Educação (FEUSP) e com sua área de pesquisa em educação infantil. Nessa entrevista, a professora fala sobre os problemas na adoção da metodologia construtivista por parte do governo e na falta de preparação por parte dos professores.

Com o pedido de revisão dos Parâmetros Curriculares Nacionais pelo Ministro da Educação, começa o debate sobre a eficiência do método construtivista de ensino. Como a senhora vê essa questão?
Tizuko Kishimoto - O problema maior é que se critica uma abordagem anterior sem avaliar as condições adequadas para uso dessa metodologia. Define-se a abordagem, mas não se criam condições para sua aplicação. A escola não tem biblioteca, não tem material, não é estruturada.

A crítica está no método quando o problema está na estrutura, na falta de estrutura. O nosso sistema público de ensino tem inadequações estruturais em vários pontos, por exemplo: excesso de crianças. Nós temos um professor para 40 crianças. Além disso, o professor está em uma escola que já é desestruturada porque só tem mesa e cadeira. Na educação infantil não se pode se trabalhar só com mesa e cadeira.

O que seria necessário para melhorar a qualidade desse ensino infantil à maneira do sócio-construtivismo?
Tizuko - Na educação infantil, a criança precisa ter em seu espaço áreas com livros, áreas com materiais como brinquedos e jogos de construção, com fantasias, materiais voltados à experiência para o desenvolvimento da investigação, da observação, materiais envolvendo artes. Tendo esses recursos na sala, o professor pode trabalhar acolhendo o interesse das crianças, tendo ajuda de um auxiliar, podendo fazer um diálogo mais individualizado com as crianças. Agora com 40 crianças, sem material, sem nada, o professor já fica aos berros. Conclusão, a criança chega à 8ª série sem estar alfabetizada.

Para a recepção de crianças de seis anos em escolas de ensino fundamental, que tipo de preparação a escola precisa passar?
Tizuko - Precisaria ter um projeto de integração entre a educação infantil e as séries iniciais, é um projeto que já estamos fazendo aqui na Escola de Aplicação . O projeto implica desde você ter as mesas no tamanho da criança - porque a criança de cinco ou seis anos ainda é pequena, não consegue ficar sentada nas cadeiras de ensino fundamental.

Além disso, crianças dessa idade não sabem ler e escrever ainda. Então é através da linguagem oral, através das brincadeiras, através da grafia dos desenhos, até gradativamente chegar à escrita. É importante você dialogar com a criança para ela te explicar o significado dos grafismos dela. Todo esse processo tem que ser feito nessa passagem.

E daí a necessidade da redução no número de crianças?
Tizuko - Exatamente, se você não tiver o contato dialógico professor e a criança, você não tem condições de levar a criança à análise.

Uma das razões apresentadas para que o método de alfabetização seja repensado, é o alto índice de repetência na 1ª série. Quando o método construtivista é utilizado adequadamente, os números se repetem?
Tizuko - Não acontece porque se você dá as condições materiais, você garante a integração das crianças, você oferece o suporte do adulto, ela vai para frente.
Mas o que acontece: 40 crianças sem material, o professor não deixa as crianças falarem porque fica uma desordem, então ele fala o tempo todo e as crianças não conseguem acompanhar porque não tem nem material visual, nem manipulativo, nem nada. Só cópia, cópia. Ninguém aprende.

A concepção que esses professores e essa política têm da criança é que basta a criança sentar, e eu dar uma cartilha e fazer cópias, assim ela vai aprender. Como se a criança fosse uma tabula rasa. A criança não é um mini computador, ela vai além, ela sempre pensa mais.

Os professores estão preparados para a educação segundo esse método construtivista?
Tizuko - Além de não terem os materiais, os professores também desconhecem as formas de fazê-lo, porque nos cursos, quer de Pedagogia quer de Magistério, estuda-se a teoria, não se estuda a coerência entre a teoria e a pratica, não há uma profissionalização de fato da formação dos professores.

Os cursos de Pedagogia não têm disciplinas que ensinam o professor a desenvolver uma prática. Tem uma carga de estágio muito pequena, e o estágio não é acompanhado. E a formação do professor deveria ser tão rigorosa para ter um professor acompanhando o estágio do aluno, e um supervisor lá na escola acompanhando.

Então esse professor que está se formando aprende a prática com um professor de escola defasado?
Tizuko - Exatamente, e reproduz a mesma prática inadequada. É uma reprodução de práticas inadequadas porque a Universidade não dá as novas fórmulas de profissionalização. Por isso que no Brasil não se aprende a ler e escrever, porque o professor não tem a formação adequada. Ele tem uma formação teórica, ele fala bem mas não sabe da prática.

Que alterações se fazem necessárias para a aumentar a qualidade de ensino?
Tizuko - Todo tipo de mudança é um processo. As universidades que puderem alterar seu currículo, isso é parte desse processo. Agora, tem a parte do governo. Assim como ele está propondo dois professores para o fundamental, deve colocar dois professores para a educação infantil. E paralelamente ao manter os professores, é preciso estruturar a escola com recursos. Não se faz uma boa educação sem recursos.

Dessa forma, a ampliação para nove anos de ensino fundamental vai representar uma mudança realmente?
Tizuko - Se continuar desse jeito vai ser apenas uma mudança de rótulo. Porque aquelas crianças que estavam no infantil já tinham uma inadequação, agora no fundamental ainda estarão inadequadas. Talvez haja um ganho para aquelas que nunca estiveram em uma escola que começaram um pouco mais cedo, só que começar mais cedo pode ser um perigo para aquela criança que nunca entrou na escola e entra em um ensino fundamental inadequado e terá dificuldade de aprendizagem.

Quais seriam as suas sugestões?
Tizuko - A condição seria dar mais autonomia para a criança, dar mais autonomia para o professor e mais autonomia para o diretor, e envolver os pais. Quando a família sabe o que a escola está fazendo, ela procura dar continuidade.

Fonte: Cristiane Capuchinho, da USP Online