domingo, 17 de maio de 2009

EDGAR MORIN: 'O mestre tem obrigação de formar'

EDGAR MORIN: 'O mestre tem obrigação de formar'

Para o senhor, que é considerado o papa do pensamento complexo, qual o futuro do conhecimento?
Não sou um profeta, mas espero que o conhecimento complexo possa ser esmiuçado e desenvolvido. Isso permitiria a cada indivíduo assumir melhor o seu destino individual e coletivo em sua nação e, também, o da espécie humana. Mas não estou convicto de que o conhecimento vá conseguir generalizar-se. Afinal, o futuro é tão incerto, que fica difícil arriscar qualquer previsão.

Por que faz críticas severas à fragmentação do conhecimento?
Tentar analisar o todo através de uma parte torna os espíritos míopes. É como enxergar apenas uma cor do arco-íris. As conseqüências podem ser irreversíveis.

A televisão é acusada de incitar a violência entre os jovens. Qual o papel do educador frente a essa questão?
A função dos mestres não é apenas cumprir a carga horária e o conteúdo programático. Os educadores devem, a partir do teor de suas classes, explorar temas afins. Em uma determinada aula, o professor pode, por exemplo, criar um espaço para debater os programas de televisão. Os estudantes devem ser esclarecidos de modo que a mídia seja interrogada e vista sob um prisma crítico. O que acho ruim é a posição de se sentir em uma cidadela atacada. Os jovens precisam perceber como são construídos os programas: sua montagem, estrutura e funcionamento. Outro exemplo são as telenovelas, cuja audiência é significativa. Por que elas apaixonam e atraem? Mas, enfim, em vez de ficar criticando a influência persuasiva da mídia e culpá-la pelo aumento da violência, devemos abastecer nossos jovens para que possam assistir à programação criticamente.

Nesta época de globalização, é importante para a sobrevivência profissional o domínio de outra língua?
É imprescindível que as pessoas saibam três ou quatro línguas. Entendemos melhor o ponto de vista de outro povo quando conhecemos sua língua. Além disso, precisamos estar à altura de um novo mundo de comunicação que está sendo criado.

As crianças estão sendo atraídas pelos computadores antes de aprenderem a escrever. Quais os efeitos do uso prematuro das tecnologias?
A tecnologia agiliza processos e, principalmente, a busca pelas informações. Dessa forma, criam-se nos usuários novos tipos de percepção e ritmo. Não vejo com pessimismo o uso das tecnologias aplicadas ao conhecimento. O problema é a falta de diálogo, a compartimentalização do conhecimento. As questões mais profundas de nossa sociedade não estão na mídia, mas no processo que nos torna cada vez mais dependentes e em busca do dinheiro, da sobrevivência.

Por que o senhor diz que a brincadeira é uma forma de aprendizado?
A ludicidade é sempre muito interessante. Quer seja num jogo de cartas, quer seja no futebol, as crianças aprendem a interpretar o silêncio, as atitudes do outro parceiro, a situação que está sendo proposta naquele momento. Além disso, as brincadeiras aguçam a imaginação.

Como deve ser a Educação no próximo século?
É preciso que ela tenha a idéia da unidade da espécie humana, sem encobrir sua diversidade. Há uma unidade humana, que não é dada somente pelos traços biológicos do ser, assim como há a diversidade marcada por outros traços que não os psicológicos, culturais e sociais. Compreender o ser humano é entendê-lo dentro de sua unidade e de sua diversidade. É necessário conservar a unidade do múltiplo e a multiplicidade do único. A Educação, e esse é o desafio que se coloca para os professores do futuro, deve ilustrar o princípio de unidade e de diversidade em todos os seus domínios.

Entrevista concedida à jornalista Viviane Viana, de O Dia, publicada na edição 27/06/2000 - Rio de Janeiro RJ