sábado, 18 de abril de 2009

Imaginação: A mente e o sonhar.

Ser homem não é somente estar no mundo junto com os outros, limitado em sua existência corpórea, social, histórica, lingüística. Ser homem é ser também capaz de transcendência, de transformar o visto em algo novo, de buscar a unidade essencial da alma, de conectar-se com sua subjetividade e trazer á finitude do mundo fenomênico, o infinito do ser. E uma das formas de buscar esse desvelamento do que é imortal, dá-se através da atividade criadora. Através da criação de um poema, de uma estória, de uma obra de arte o homem constrói a si mesmo, revela novos significados aos materiais que já existiam antes dele, transforma o mundo em que vive, busca a si mesmo e se auto-reconhece. Essa criação porém, ocorre dentro de todo um processo ao qual a imaginação preside. É a imaginação esta faculdade que se coloca além do espaço e do tempo, a responsável pela criação de novas significações e novas imagens dentro da linguagem. E segundo o dicionário Welster a imaginação também é o ato ou poder de formar imagens mentais do que não está realmente presente, do que jamais foi experimentado ou de criar novas imagens e idéias pela combinação de experiências anteriores. Assim, através da imaginação o indivíduo alcança um mundo onde tudo é possível, onde os objetos, diferentes da realidade da percepção, são vistos em sua totalidade, existem em unicidade com seu criador, e dependem muitas vezes das lembranças de quem os imagina. Porém na imaginação não existem limites e nem tudo se revela como fruto do passado. Um exemplo disso é que podemos imaginar um pégaso quando tudo o que conhecemos ou lembramos do mundo real, são cavalos. Pois a imaginação é autônoma e tão importante quanto a percepção e o pensar. Já que é “na imaginação que o homem começa a criar seu universo através de uma cadência rítmica criada pelo artista e que conduz á revelação e ao reconhecimento.” Revelação e reconhecimento dos próprios impulsos com os quais o indivíduo comum não sabe como lidar e que o artista explicita em sua obra dando a eles um tratamento que os resignifica. Desta maneira podemos enxergar o artista como “o homem criador que consegue pelo poder da imaginação, revelar o sentido oculto das coisas.”
Neste contexto,encontramos a fala de Otavio Paz que citando o poeta inglês Coleridge, nos diz: “a imaginação é o dom mais alto do homem e em sua forma primordial a faculdade original de toda percepção humana. A imaginação transcedental é a raiz da sensibilidade e do entendimento que torna possível o juízo. A imaginação desdobra ou projeta os objetos e sem els não haveria nem percepção, nem juízo, assim, desdobra-se e apresenta os objetos á sensibilidade e ao entendimento. Sem essa operação – na qual consiste propriamente o que chamamos de imaginar- seria impossível a percepção. Razão e imaginação não são faculdades opostas: a segunda é o fundamento da primeira e o que permite perceber e julgar o homem.Porém a imaginação é mais do que um órgão do conhecimento, mas também a faculdade de expressá-lo em símbolos e mitos. Nesse segundo sentido o saber que a imaginação nos entrega não é realmente um conhecimento: é o saber supremo. Imaginação e razão, em sua origem uma só e mesma coisa, terminam por se fundir numa evidência que é indizível, exceto através de uma representação simbólica: o mito. Desta forma, além de ser a condição necessária para toda a percepção é também uma faculdade que expressa mediante mitos e símbolos, o saber mais alto.”
Saber este que leva o indivíduo ao reconhecimento de si mesmo. A imaginação é assim, um órgão que não só possibilita o conhecimento do mundo, mas também o auto-conhecimento.
No processo de descoberta e crescimento, ao imaginar, isto é, ao criar suas primeiras ficções a criança prepara-se para o diálogo. A imagem e o símbolo são nela provisoriamente o outro , uma forma de satisfazer seu instinto ainda não desenvolvido, assim á linguagem comunicativa, junta-se a linguagem expressiva: a criança não só deseja transmitir aos outros uma série de informações, como também os segredos de sua interioridade. Para poder expressar-se totalmente usa da linguagem simbólica, que fatalmente nos levará de volta á nossas origens mais íntimas e míticas. Daí podermos afirmar que um dos papéis da imaginação é o de criar imagens que iluminam um espectro mais amplo da consciência. Desta maneira a imaginação é o lugar de emergência do ser e do que de melhor o homem tem, aquilo que faz buscar uma participação com o Criador, originando obras de arte que falam do indivíduo, colocam ordem estética ao mundo das coisas e transmitem os valores de uma época, formando os elos significativos da corrente cultural que prendem os homens ao seu passado e os permitem projetar-se no futuro. Através da imaginação e da criação emergem os valores, dando ao caos da existência, ordem e significado e elevando o homem na sua busca por transcendência, fazendo com que sua criatividade se expresse no que ela tem de eterna.

BIBLIOGRAFIA CONSULTADA

FOBÈ, Nair Leme – “ A imaginação e a fantasia no desenvolvimento da criatividade”in “REFLEXÃO” –Vol.16, pgs. 67-83, Campinas .
PAZ, Otavio – “O Arco e a lira” – ed. Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1982.
TREVISAN, Armindo – “Reflexões sobre a poesia” – ed. InPress , Porto alegre, 1986